10% extras da conta não foram pagos, graças aos milhões de decibéis que me pouparam da explicação.
20% da cachaça não entrou na garganta, o garçom levou numa trombada e ficou pelo chão, pro santo.
30% do suor não saiu de mim e nem foi por causa do ambiente, veio da solidariedade visual térmica para com uma pessoa que tava de manga longa de flanela.
40% do espaço era pra ficar em pé, e era ocupado por 50% de casais rodopiantes.
60% das músicas eram desconhecidas, mas passaram a ser familiares depois da 5a repetição do refrão.
80% de chance de falar que não volto mais, 90% de isso ser mentira.
todos os fatos, novidades e destemperamentos que eu queria comentar com mais de 5 pessoas mas tive preguiça de ligar.
18.2.11
quarta-feira
A quarta tava brilhosa e quem entrou primeiro na piscina foi ela.
Devia ter seus 50 e alguns anos, cabelos compridos devidamente enlourecidos e esticalhados, pele pipocada de 50 e alguns anos de exposição ao sol protegida por cenoura e bronze. Desceu pela escada gloriosamente, fazendo o piscinão clorado parecer ibiza.
O esposo veio em seguida. Corpo semi-sarado, barriga semi-chapada e pele igualmente pipocada. Nas costas um brasão do flamengo já gasto, obrigado a aparecer mas visivelmente gritando por arrego. Esperou ela nadar gloriosamente com a cabeça pra fora d´água e dar uma distância. Mergulhou de ponta, como nos tempos idos de praia vermelha.
Não precisava encarar muito nem ouvir o chiado na voz, o casal obviamente era carioca, e, saudosos da brisa marítima e do descompromisso da terra natal, não resistiam a um mergulho casual nas manhãs de quarta.
A atividade e movimentação aquática dos dois só não era mais constrangedora porque parecia ser séria. E tampouco cabia um questionamento inocente, de gente curiosa com a vida mesmo, porque parecia ser caso de saúde, ou física ou mental, ou tara mesmo, não deu pra distinguir.
Funcionou assim. O casal se emparelhava. Ele jogava uma bola de frescobol (tá aí, mais uma prova da gemice da cariocada) uns 5 metros à frente. Ela nadava de cachorrinho até alcançá-la (não, não abocanhou a bolota nenhuma vez). Ele seguia e os encontrava, pegava a bola mais uma vez, jogava, ela pegava, ele seguia, ele jogava, ela pegava. E assim passaram quase uma hora ao redor da piscina, pasmem, sem rir, sem gritar, sem beijar, sem reclamar.
Saíram da piscina, sentaram no bar, pediram uma vodca e cada um acendeu seu cigarro. Ele suspirou e falou alguma coisa muito baixo, que posso quase garantir que era alguma coisa entre "partiu jurerê?" e "foi bom pra você?".
Devia ter seus 50 e alguns anos, cabelos compridos devidamente enlourecidos e esticalhados, pele pipocada de 50 e alguns anos de exposição ao sol protegida por cenoura e bronze. Desceu pela escada gloriosamente, fazendo o piscinão clorado parecer ibiza.
O esposo veio em seguida. Corpo semi-sarado, barriga semi-chapada e pele igualmente pipocada. Nas costas um brasão do flamengo já gasto, obrigado a aparecer mas visivelmente gritando por arrego. Esperou ela nadar gloriosamente com a cabeça pra fora d´água e dar uma distância. Mergulhou de ponta, como nos tempos idos de praia vermelha.
Não precisava encarar muito nem ouvir o chiado na voz, o casal obviamente era carioca, e, saudosos da brisa marítima e do descompromisso da terra natal, não resistiam a um mergulho casual nas manhãs de quarta.
A atividade e movimentação aquática dos dois só não era mais constrangedora porque parecia ser séria. E tampouco cabia um questionamento inocente, de gente curiosa com a vida mesmo, porque parecia ser caso de saúde, ou física ou mental, ou tara mesmo, não deu pra distinguir.
Funcionou assim. O casal se emparelhava. Ele jogava uma bola de frescobol (tá aí, mais uma prova da gemice da cariocada) uns 5 metros à frente. Ela nadava de cachorrinho até alcançá-la (não, não abocanhou a bolota nenhuma vez). Ele seguia e os encontrava, pegava a bola mais uma vez, jogava, ela pegava, ele seguia, ele jogava, ela pegava. E assim passaram quase uma hora ao redor da piscina, pasmem, sem rir, sem gritar, sem beijar, sem reclamar.
Saíram da piscina, sentaram no bar, pediram uma vodca e cada um acendeu seu cigarro. Ele suspirou e falou alguma coisa muito baixo, que posso quase garantir que era alguma coisa entre "partiu jurerê?" e "foi bom pra você?".
26.1.11
é hard
Minha relação com a informática é dessas de casal explosivo, juras de ódio e amor eterno. De altos e baixos, com baixos consideravelmente mais frequentes e pronunciados que os altos. Os momentos de maior glória e amor foram a conquista do excel, o domínio do redimensionamento de fotos e uah, o antivirus. Os baixos são todos os outros.
Tenho uma particular rebeldia antipática com back up. Depois de perder várias séries de arquivos martelando que "não precisa de cópia porque eu confio no meu hd", me rendi aos caprichos dos gadgets armazenantes. Adorava CDs e botar pra BURN no nero, mas o computador muda completamente numa velocidade maior do que o envelhecer de uma calcinha, e, de repente, não tem mais a casinha do CD em todos os lugares.
Das novidades que se apresentaram para mim, desconfio do pen drive, coisa tão pequena, que comporta tanta coisa e que vende nas americanas por 10 reais não pode ser séria. Comprei um HD, que é maiorzinho, capacidade armazenativa de tudo que eu já produzi até hoje e, talvez por esse detalhe, bem mais caro.
Besta que só eu, voltei ao discurso "eu confio no meu HD".
Até o dia em que, mulher traída, liguei o quadrado na máquina principal e ele estava vazio. Instalada tal catástrofe, mulher traída, tive que acreditar numa história devassa do nível "mas-amor-isso-na-minha-gola-não-é-batom-é-giz-de-cera-das-crianças".
Naquele momento nenhuma explicação podia ser mais clara: meus arquivos fugiram pela janela. Sempre soube que guardar informática perto da luz podia dar problema. Mudada a configuração do quarto, agora mantenho o computador perto da porta, e sempre antes de ligar, fecho as persianas. É melhor prevenir.
29.12.10
sai!
Ela chegou, a preguiça, no fim da tarde de novembro, rodou a maçaneta sem pedir licença e sem fazer barulho.
Não se anunciou mas teve a gentileza de não abrir a porta de uma vez.
Entreaberta a porta, não viu ninguém nem ninguém a viu, se sentiu convidada a entrar.
Sentou, tirou o sapato, apoiou o pé na mesa de centro, pegou uma revista que estava ali jogada e começou a folhear.
Não vou mentir, eu reparei nela antes ali do momento da maçaneta.
Uma presença confortável, morna, aconchegante. Deixei ela ficar, uma coisinha simpática.
Ofereci um café, um suco, fiz cafuné, bolinho, me deixei balançar na rede, me deixei.
E ela ficou.
Nas horas de calor dá uma sumida, no frio me chama pra conversar e quando chove à noite dorme comigo.
Ando tensa.
Até o fim dessa semana ela tem que ir embora, nada pessoal, sem ofensas.
Já mudei a trilha sonora, alterno músicas digestivas e skas cubanos.
Empinei a vassoura atrás da porta e cortei os suprimentos.
Sempre que possível e quando os mosquitos deixam, a janela fica aberta pra dar a ideia da fuga.
Tudo assim, bem suave e sem mágoas.
Preguiça enfezada comigo em 2011, eu hein, tô fora.
Não se anunciou mas teve a gentileza de não abrir a porta de uma vez.
Entreaberta a porta, não viu ninguém nem ninguém a viu, se sentiu convidada a entrar.
Sentou, tirou o sapato, apoiou o pé na mesa de centro, pegou uma revista que estava ali jogada e começou a folhear.
Não vou mentir, eu reparei nela antes ali do momento da maçaneta.
Uma presença confortável, morna, aconchegante. Deixei ela ficar, uma coisinha simpática.
Ofereci um café, um suco, fiz cafuné, bolinho, me deixei balançar na rede, me deixei.
E ela ficou.
Nas horas de calor dá uma sumida, no frio me chama pra conversar e quando chove à noite dorme comigo.
Ando tensa.
Até o fim dessa semana ela tem que ir embora, nada pessoal, sem ofensas.
Já mudei a trilha sonora, alterno músicas digestivas e skas cubanos.
Empinei a vassoura atrás da porta e cortei os suprimentos.
Sempre que possível e quando os mosquitos deixam, a janela fica aberta pra dar a ideia da fuga.
Tudo assim, bem suave e sem mágoas.
Preguiça enfezada comigo em 2011, eu hein, tô fora.
19.11.10
arrupio
- Você já reparou que o toque não gasta?
- Hã?
- Assim, não importa quantas vezes eu passe a mão no teu braço, o tato não cansa, você vai sempre sentir. Brinquedo infinito.
- Pois é. mas o tato, mesmo sendo mágico como todos os outros sentidos, é cotidiano, é normal. O toque não cansa do mesmo jeito que você não cansa de ver, nem cansa de ser capaz de ouvir uma música. Já o arrepio, esse que consegue chegar na espinha e transforma diário em especial não tem hora pra acontecer, pra começar nem pra acabar. É extremamente temperamental. O toque não gasta, o arrepio sim.
- E quanto tempo dura teu arrepio?
- Vai saber..
Freou a mão, olhou pros dedos bem de perto, pra pele. Procurou nos vincos das digitais de onde sai e por onde entra isso. Nada. Sem faísca nem fio, nem nada que fosse indicar qual era esse prazo.
- Hã?
- Assim, não importa quantas vezes eu passe a mão no teu braço, o tato não cansa, você vai sempre sentir. Brinquedo infinito.
- Pois é. mas o tato, mesmo sendo mágico como todos os outros sentidos, é cotidiano, é normal. O toque não cansa do mesmo jeito que você não cansa de ver, nem cansa de ser capaz de ouvir uma música. Já o arrepio, esse que consegue chegar na espinha e transforma diário em especial não tem hora pra acontecer, pra começar nem pra acabar. É extremamente temperamental. O toque não gasta, o arrepio sim.
- E quanto tempo dura teu arrepio?
- Vai saber..
Freou a mão, olhou pros dedos bem de perto, pra pele. Procurou nos vincos das digitais de onde sai e por onde entra isso. Nada. Sem faísca nem fio, nem nada que fosse indicar qual era esse prazo.
8.11.10
Enquanto isso na mesa 7
Na mesa 05 pediram uma salada e um suco. Na mesa 05 pediram duas águas. Na mesa 05 pediram um risoto com frango grelhado. Na mesa 05 pediram sanduíche de filé com emental. Na mesa 05 passaram exatos 60 casais diferentes que nem perceberam o que acontecia na mesa 07.
Ali, 72 horas depois ela já confundia seu braço com o da poltrona e não sabia mais se era o volume do seu cabelo ou a almofada que afofava sua cabeça pendente. A mesinha redonda amontoava algumas xícaras de café, papeis com rascunhos e ideias, bitucas, e ainda dava apoio para os pés entediados. A mesinha do restaurante-café virou uma mistura de criado mudo, escrivaninha e mesa de café da manhã. A fumaça rodeava e ninguém mais se espantava com aquelas presenças: o garçom já estava tão íntimo e familiar que até palpitava nos assuntos como um velho amigo, e atendia pelo apelido.
- Ô, Jô! (A abreviação de Jocelino era confortável e bem vinda.)
- Ôpa, nem precisa dizer, mais dois expressos.
E o ritual se repetia todos os anos pra celebrar o ritmo estranho daquela amizade. Os meses sem contato eram repostos por 72 horas seguidas em um café desses 24 horas. Sempre na mesma mesa, com a mesma poltrona, mesmas dores nas costas e um sentimento de "pra que a gente continua fazendo isso?".
Era necessário. Era como dar corda na cabeça, era desvirar o ponto das linhas do pensamento, desconstruir ideias e rir alto um riso economizado especialmente praquele tipo de ocasião.
8.10.10
de 3
Na mesa bamba a gente coloca um calço, manda serrar a perna, é um problema.
A cadeira que rebola a gente ou fica irritado ou rebola junto, coloca um adesivinho que descola rápido ou um toquinho de madeira.
Tudo que tem 4 apoios está sujeito a essa condição de tremeliques e desbalanços, conforme manda a física mecânica, que diz algo parecido com "3 pontos de apoio é o mínimo necessário para que se equilibre um corpo suspenso com firmeza gravitacional".
As fotos não podem ficar tremidas, daí o tripé.
O projeto não pode ficar borrado, daí o cavalete.
Ficar de 4.
Estar de quatro por alguém, não no sentido sexual que segue outra metodologia e predileções, respeita essa mesma premissa. Fique de quatro, apoie todos os seus eixos na pessoa-dupla e pronto, estará sujeito a desbalanços e a calços constantes. Cada calço é um paliativo que, como no pé da mesa, com o tempo irrita, e se torna maior do que a própria mesa ou sua função.
Baseada em newton e suas gravidades, e em algum moderno psicólogo comportamental do desapego, tento ficar nos 4 apoios só nos exercícios pra coxa da academia e no ambiente 4 paredes. Muito mais agradável. No emocional, respeitar a física e é só tripé. Muito mias sólido.
A cadeira que rebola a gente ou fica irritado ou rebola junto, coloca um adesivinho que descola rápido ou um toquinho de madeira.
Tudo que tem 4 apoios está sujeito a essa condição de tremeliques e desbalanços, conforme manda a física mecânica, que diz algo parecido com "3 pontos de apoio é o mínimo necessário para que se equilibre um corpo suspenso com firmeza gravitacional".
As fotos não podem ficar tremidas, daí o tripé.
O projeto não pode ficar borrado, daí o cavalete.
Ficar de 4.
Estar de quatro por alguém, não no sentido sexual que segue outra metodologia e predileções, respeita essa mesma premissa. Fique de quatro, apoie todos os seus eixos na pessoa-dupla e pronto, estará sujeito a desbalanços e a calços constantes. Cada calço é um paliativo que, como no pé da mesa, com o tempo irrita, e se torna maior do que a própria mesa ou sua função.
Baseada em newton e suas gravidades, e em algum moderno psicólogo comportamental do desapego, tento ficar nos 4 apoios só nos exercícios pra coxa da academia e no ambiente 4 paredes. Muito mais agradável. No emocional, respeitar a física e é só tripé. Muito mias sólido.
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