todos os fatos, novidades e destemperamentos que eu queria comentar com mais de 5 pessoas mas tive preguiça de ligar.

8.10.10

de 3

Na mesa bamba a gente coloca um calço, manda serrar a perna, é um problema.
A cadeira que rebola a gente ou fica irritado ou rebola junto, coloca um adesivinho que descola rápido ou um toquinho de madeira.

Tudo que tem 4 apoios está sujeito a essa condição de tremeliques e desbalanços, conforme manda a física mecânica, que diz algo parecido com "3 pontos de apoio é o mínimo necessário para que se equilibre um corpo suspenso com firmeza gravitacional".

As fotos não podem ficar tremidas, daí o tripé.
O projeto não pode ficar borrado, daí o cavalete.

Ficar de 4.
Estar de quatro por alguém, não no sentido sexual que segue outra metodologia e predileções, respeita essa mesma premissa. Fique de quatro, apoie todos os seus eixos na pessoa-dupla e pronto, estará sujeito a desbalanços e a calços constantes. Cada calço é um paliativo que, como no pé da mesa, com o tempo irrita, e se torna maior do que a própria mesa ou sua função.

Baseada em newton e suas gravidades, e em algum moderno psicólogo comportamental do desapego, tento ficar nos 4 apoios só nos exercícios pra coxa da academia e no ambiente 4 paredes. Muito mais agradável. No emocional, respeitar a física e é só tripé. Muito mias sólido.

22.9.10

il volcani

- !Niña, mira! Niña!

Niña abriu um olho de cada vez, avaliando o benefício desse custo.
O olho esquerdo foi mais curioso pra mirar o que se pasava e conseguiu ficar abierto.
O céu tava absurdamente escuro, estrelado, parece que no hemisfério sul e no inverno tem mais estrela no céu.
No meio do céu tinha uma mancha vermelha. Um pássaro de fuego, tipo desses que moram nas tatuagens das batatas dos caras.
Se não tivesse parado, certeza que seria um ovni.

- El volcán!
- Está despierto?
- Puéeees que el volcán no se acuesta nunca.

O centro da terra tão perto, um vermelho tão chocante no céu e tanta grandeza la pusieron emocionada.
Agradeceu a oportunidade, pediu sua boa vontade para que a pudesse receber no dia seguinte e voltou a fechar os ojos.

19.8.10

boa noite


o frio na barriga passou pra perna, e de repente era o pé que estava gelado.
a mão buscava o cobertor, que se enrolava no corpo e tentava, mas não conseguia.
a perna teimosa encostava na parede, e gelada, trazia notícias do mundo exterior:
continuava noite, continuava inverno.
o frio na cabeça descia pela goela, com goles de saliva e chá, e chegava de escorregador na barriga.
o olho abre, fecha, fecha mais forte, abre e coça.
o pensamento vai ali, volta, se enrola no cobertor e no cabelo, e escorrega pra outro lugar feito sabonete molhado.
o colchão faz barulho, a respiração fala, barulho de relógio, do caminhão de lixo.
longe, longe..
a insônia.

9.8.10

gaveteiro

Todo mundo já ouviu uma aula sobre memória ou concentração que começa com a comparação besta da mente com um gaveteiro. Separam-se as gavetas por assuntos, pela facilidade de acesso, pela relevância, ou qualquer outra categoria que pareça pertinente, numa tentativa de fazer uma arquivologia mental.

Pois que tenho achado meu armário uma representação bastante fidedigna da minha cabeça. Qualquer coisa em qualquer gaveta, peças fora, peças dentro, peças no chão, sem qualquer consideração organizativa ou cronológica. A regra é fechar a porta e não deixar escapar nenhum braço de camisa, que tudo bem, estamos funcionando.

As gavetas têm tamanhos diferentes, e são organizadas por cores.
Mas tem sonho que parece que aconteceu, tem gente que some, tem nome que vira outro, tem letra que se confunde e tem prioridades que se ultrapassam sozinhas.

Os cabides estão em ton sur ton.
Mas tem evento que parece que não fui, tem critério que se transforma, tem frase que fica, tem cheiro que não passa e tem pensamento que vira texto.

Sem nem pensar em dobrar as peças.

6.8.10

tesourinha


Quando o piloto avisa "senhores passageiros, voltem pros seus assentos e afivelem os cintos, estamos passando por uma zona de instabilidade", aposto que todo mundo segura o braço da cadeira ou do colega do lado com força. E pensa alguma reza e "o que eu queria que tivesse comigo se o avião caísse" e enrola a alça da bolsa no braço. Eu sempre penso nos óculos, uma náufraga míope de lente não rende muito into the wild.

Os náufragos também pensaram na coisa errada.

Nadia pensou na aspirina, mas esqueceu da tesourinha.
Nadia estava muito feliz porque tinha alongado os cílios para o casamento de sua prima, em Lisboa, motivo da sua presença no avião além mar. O procedimento era caríssimo e inovadorérrimo: implantam-se fios da base da nuca nas pálpebras pra dar uma engrossada na piscada. Nádia esqueceu da tesourinha e teve que aprumar os cilios crescidos pra trás da orelha, nada agradável. "Com o tempo vai dar pra fazer uma trança" - pensou.

Antônio pensou nas sementes raríssimas de batata brava de Goiás que levava na bagagem de mão, mas esqueceu da tesourinha. Antônio ia pra Espanha plantá-las no terroir de seu cunhado. Aquela ilhota nunca comeu cozidos tão saborosos, apesar da dificuldade com a abertura dos pacotes lacrados.

19.7.10

decidindo como um libriano - constipação decisória

1. faça uma opção.
2. quando estiver 90% decidido, encontre outra opção.
3. encontrada outra, descubra que existem outras cem.
4. desista da primeira, com toda certeza.
5. faça listas de prós e contras.
6. refute cada pró e contra de cada item.
7. esbraveje pelo excesso de opções do mundo.
8. pense em decidir depois.
9. pense em deixar que se decida sozinho.
10. pense que se todos são bons qualquer escolha vai ser interessante.
11. encontre alguém e peça uma opinião.
12. discorde da opinião, e contra-argumente.
13. vença o argumento.
14. discorde de si mesmo e escolha a opção originalmente dada pelo amigo.
15. repita "esse ou esse?" tantas vezes forem necessárias e enquanto não se sentir ridículo.
16. jogue moedas.
17. escreva papéis e sorteie.
18. acabe optando pela primeira opção, que por ser a primeira, logicamente é a mais sensata.
19. feita a escolha, pense como as outras poderiam ter sido boas.
20. cansativo.

Jamais diga que um libriano escolheu sem pensar. Chega ofende.

5.7.10

sinal verde

Ele me ultrapassou tão rápido que do carro inteiro eu só percebi a cor.
E de tão distraída que eu estava tentando lembrar a marca do carro, e pensando se a fração de segundo do tom de vermelho correspondia ao tamanho do uno que eu esperava, esqueci que o tinha pedido pra me esperar porque não sabia nem como chegar lá.
Antes de ficar indignada com tamanha falta de cordialidade, várias coisas me desocorreram.
Esqueci que descendo na banguela a gente perde controle mais fácil do que se tiver no engate da 5a, e que a economia da gasolina não compensa o coração que chega na boca quando o pneu derrapa.
Esqueci que quando a gente olha demais pro céu enquanto dirige acaba pegando as tartarugas da pista e esqueci que o retorno mais próximo do que a gente perde por distração é sempre muito distante de onde a gente tá.
O que lembrei foi da conta da física que eu não aprendi direito no grau, da velocidade da energia potencial das unidades de medida e das letras gregas.
E continuava tão entretida com isso tudo que já ia esquecendo que tinha um destino certo naquele dia. Foi quando vi que o uno, o vermelho e a cor da fração de carro que quase me rodopiaram na descida estavam ali no próximo sinal verde. Reduzindo, parando e sorrindo pelo retrovisor.