todos os fatos, novidades e destemperamentos que eu queria comentar com mais de 5 pessoas mas tive preguiça de ligar.
8.6.10
um pouco de discovery channel
Em Cabo Verde maio é época de grandes chuvas, quase tormentas, que ameaçam a levantar tudo, inclusive a ilha, naquela pequena ilha.
Essa é a mesma época de frutificação dos côtos, fruto dos coteiros. Os côtos são frutos grandes, verdes, casca grossa e polpa branca, adocicada e sem fiapos, que geralmente caem no mar com as chuvas de maio.
Siri-açu é uma espécie aquática endêmica de Cabo Verde. De cada 100 siris-açu, um nasce com uma pinça maior que a outra, o que os causa certo constrangimento em seu núcleo social (proporcionalmente, seria como se nascêssemos com um braço tão grande que se arrastaria no chão).
Pois bem, curiosamente, siris-açu se alimentam de vegetais, especificamente côtos. Assim, em maio, quem visita Cabo Verde pode observar um fenômeno digno de discovery channel: siris-açu formando montanhas enormes deles mesmos, buscando, na superfície, pescar ao contrário os côtos que a chuva deixou boiando por ali.
Moral da história: parece que a gente está onde deveria mesmo.
26.5.10
preferência, de preferir
Pouca gente sabe a verdade sobre as filas preferenciais.
Isso de que elas servem pra poupar as grávidas, recém-mães e velhinhos de sofrer menos desgaste nessa fase já tão desgastada da vida é verdade, mas é balela.
Os mercados e bancos, agora declaradamente comprometidos com a causa social e a sustentabilidade social e a responsabilidade mundial, e todas essas palavras enormes da verde vida moderna, criaram esse mecanismo grátis para aproximação social e revitalização das famílias.
Os frequentadores ignoram essa estratégia, mas entendem que pra ficar na fila devem representar da melhor forma possível seu papel de desabilitado, pra não levantar suspeitas nos outros clientes de cara feia nas outras filas enormes.
Assim, as grávidas seguram uma mão no marido e outra na cintura, as recém-mães se apertam com suas recém-crias e os filhos dos velhinhos fazem questão de apoiar seu andar.
E por mais que não prefiram, durante esses minutos de coesão preferencial forçada, as pessoas se tocam, se olham e se suportam. Ainda que a cabeça esteja na cesta de compras do vizinho, querendo ir embora logo, logo...
Isso de que elas servem pra poupar as grávidas, recém-mães e velhinhos de sofrer menos desgaste nessa fase já tão desgastada da vida é verdade, mas é balela.
Os mercados e bancos, agora declaradamente comprometidos com a causa social e a sustentabilidade social e a responsabilidade mundial, e todas essas palavras enormes da verde vida moderna, criaram esse mecanismo grátis para aproximação social e revitalização das famílias.
Os frequentadores ignoram essa estratégia, mas entendem que pra ficar na fila devem representar da melhor forma possível seu papel de desabilitado, pra não levantar suspeitas nos outros clientes de cara feia nas outras filas enormes.
Assim, as grávidas seguram uma mão no marido e outra na cintura, as recém-mães se apertam com suas recém-crias e os filhos dos velhinhos fazem questão de apoiar seu andar.
E por mais que não prefiram, durante esses minutos de coesão preferencial forçada, as pessoas se tocam, se olham e se suportam. Ainda que a cabeça esteja na cesta de compras do vizinho, querendo ir embora logo, logo...
7.5.10
estudo sobre o calendário
segunda-feira, dia da lua.
dureza. o dia mais lento da semana, feito pra se comentar sobre o pânico e futebol. e começar dieta. como enquanto metade dos times ganha, a outra perde; é um dia de mau humor pra metade das pessoas que torcem, invariavelmente, o que torna esse dia ainda mais desagradável. também serve pra aprender a valorizar o domingo, que embora você tenha passado a véspera reclamando dele, é muito melhor que segunda.
terça-feira
pensa-se: é, o pior já passou. realmente, a semana começou. devo começar a funcionar também.
quarta-feira
pra alguns tem futebol. pra outros é quarta feira.
quinta-feira
é o auge. temos a somatória do pique da metade da semana que já passou com a previsão do fim de semana que tá chegando. vale a máxima "quinta é quase sexta".
sexta-feira
sem dúvida o dia mais bonito da semana. uma aura de brilho toma conta da cidade, as pessoas dirigem sorrindo. Contudo a simpatia é só aparente, não é costume dar passagem pra não perder tempo pra ir pra farra.
sábado
o dia que tem que durar 48 horas, vc tem que segurar a ressaca de sexta, ir ao mercado, almoçar com alguém, dormir, fazer o que não deu tempo pra fazer durante a semana, ir no aniversário de alguém, curtir umas horas de preguiça, arrumar qualquer coisa e sair de novo. ufa. quase não cabe.
domingo, dia do sol.
nada se mexe, ninguém se cansa demais, o "acordar" dura 2 horas, o "almoçar" dura 3, a sesta mais umas 2 e é tudo devagar e incrível. até o ar fica mais parado enquanto se espera começar alguma sessão de cinema.
dureza. o dia mais lento da semana, feito pra se comentar sobre o pânico e futebol. e começar dieta. como enquanto metade dos times ganha, a outra perde; é um dia de mau humor pra metade das pessoas que torcem, invariavelmente, o que torna esse dia ainda mais desagradável. também serve pra aprender a valorizar o domingo, que embora você tenha passado a véspera reclamando dele, é muito melhor que segunda.
terça-feira
pensa-se: é, o pior já passou. realmente, a semana começou. devo começar a funcionar também.
quarta-feira
pra alguns tem futebol. pra outros é quarta feira.
quinta-feira
é o auge. temos a somatória do pique da metade da semana que já passou com a previsão do fim de semana que tá chegando. vale a máxima "quinta é quase sexta".
sexta-feira
sem dúvida o dia mais bonito da semana. uma aura de brilho toma conta da cidade, as pessoas dirigem sorrindo. Contudo a simpatia é só aparente, não é costume dar passagem pra não perder tempo pra ir pra farra.
sábado
o dia que tem que durar 48 horas, vc tem que segurar a ressaca de sexta, ir ao mercado, almoçar com alguém, dormir, fazer o que não deu tempo pra fazer durante a semana, ir no aniversário de alguém, curtir umas horas de preguiça, arrumar qualquer coisa e sair de novo. ufa. quase não cabe.
domingo, dia do sol.
nada se mexe, ninguém se cansa demais, o "acordar" dura 2 horas, o "almoçar" dura 3, a sesta mais umas 2 e é tudo devagar e incrível. até o ar fica mais parado enquanto se espera começar alguma sessão de cinema.
26.4.10
toda lei tem uma lacuna
Onofre mora num apartamento do primeiro andar. Onofre morre de calor às tardes, porque além de seu apartamento ter carpete marrom escuro, ele é voltado para o poente. Todo dia, Onofre assiste à novela das 6 pingando de suor na sua poltrona de couro descascado. Pregando e sendo pregado.
E calor é o que mais incomoda Onofre nessa vida, mais do que o choro do bebê da vizinha do 103 ou o cheiro do xixi do gato do vizinho do 202. Ele já estava muito velho, não queria mais essa simbiose com a poltrona e fez um fundo para comprar um ar-condicionado à vista, planejado para 8 meses depois.
Aos 7 meses e meio, Onofre foi infomado que as novas diretrizes prediais não permitiriam instalação de ar-condicionado externo porque "esses ar-condicionados horrorosos afetam a fachada harmônica e orgânica do prédio Villa Verde, o senhor pode optar por um ar interno. Ou deixar a geladeira aberta." Onofre estava puto da vida.
Firmino, parceiro de porrinha de Onofre, tem uma empilhadeira que aluga pra hipermercados. Emprestável para amigos de longas eras, claro.
Onofre tem um opala 85 completo, com ar. Não hesitou em aceitar o empréstimo. Alinhou a janela do opala à janela da sua morada, ligou a chave e assisitiu a novela no fresco. Afinal, as diretrizes prediais impediam a instalação de ar-condicionado fixo, mas nada dizia sobre a instalação de auto-móveis. Onofre não estava mais puto da vida.
Prédio Villa Verde virou parada turística obrigatória na cidade, todo motorista de táxi indica o apartamento 101 e conta alguma lorota, fenômeno igual àquele do doido que fez uma ilha de garrafa pet no rio de janeiro.
E calor é o que mais incomoda Onofre nessa vida, mais do que o choro do bebê da vizinha do 103 ou o cheiro do xixi do gato do vizinho do 202. Ele já estava muito velho, não queria mais essa simbiose com a poltrona e fez um fundo para comprar um ar-condicionado à vista, planejado para 8 meses depois.
Aos 7 meses e meio, Onofre foi infomado que as novas diretrizes prediais não permitiriam instalação de ar-condicionado externo porque "esses ar-condicionados horrorosos afetam a fachada harmônica e orgânica do prédio Villa Verde, o senhor pode optar por um ar interno. Ou deixar a geladeira aberta." Onofre estava puto da vida.
Firmino, parceiro de porrinha de Onofre, tem uma empilhadeira que aluga pra hipermercados. Emprestável para amigos de longas eras, claro.
Onofre tem um opala 85 completo, com ar. Não hesitou em aceitar o empréstimo. Alinhou a janela do opala à janela da sua morada, ligou a chave e assisitiu a novela no fresco. Afinal, as diretrizes prediais impediam a instalação de ar-condicionado fixo, mas nada dizia sobre a instalação de auto-móveis. Onofre não estava mais puto da vida.
Prédio Villa Verde virou parada turística obrigatória na cidade, todo motorista de táxi indica o apartamento 101 e conta alguma lorota, fenômeno igual àquele do doido que fez uma ilha de garrafa pet no rio de janeiro.
18.4.10
7.4.10
fisiologias e compulsões
Perdoem-me os psicólogos e médicos e todos que passam a vida estudando e criando dúvidas e chegando à conclusões. Mas no meu entendimento, a relação corpo-mente acontece da seguinte forma, muito simples: o corpo faz demandas, que são rapidamente avaliadas pelo cérebro e se for o caso, o corpo pode atendê-las e todos terminam felizes. Basicamentee o corpo é um pidão e o cérebro um regulão, mantidas as condições normais de temperatura e ócio, é isso. Relativamente simples.
Quando acontece de o cérebro perder o respeito com o corpo por uma razão qualquer, ele passa a ser pulado nesse processo decisório. Quando o corpo fala diretamente com o corpo e eles se resolvem sozinhos, vualá, temos as compulsões.
O estômago pede comidagorduracomidaaçúcar insistentemente e pá, a boca e as mãos obedecem.
O pulmão pede cigarrofumaçacigarrofumaça e prontamente o indivíduo imbica um cigarro, sem menor avaliação moral e/ou racional.
Pode acontecer também do cérebro perder o respeito consigo mesmo, e passar a demandar coisas estranhas e aparentemente sem finalidade de satisfação química. Como exemplo tem o roer de unhas e o estalar de dedos.
Enquanto invento essa história, me pergunto por que diabos o meu cérebro não veta meu estômago, que insiste em pedir pra minha mão o vigésimo pedaço de queijo e é atendido, em total desprezo à sua capacidade física e noção de suficiência.
Quando acontece de o cérebro perder o respeito com o corpo por uma razão qualquer, ele passa a ser pulado nesse processo decisório. Quando o corpo fala diretamente com o corpo e eles se resolvem sozinhos, vualá, temos as compulsões.
O estômago pede comidagorduracomidaaçúcar insistentemente e pá, a boca e as mãos obedecem.
O pulmão pede cigarrofumaçacigarrofumaça e prontamente o indivíduo imbica um cigarro, sem menor avaliação moral e/ou racional.
Pode acontecer também do cérebro perder o respeito consigo mesmo, e passar a demandar coisas estranhas e aparentemente sem finalidade de satisfação química. Como exemplo tem o roer de unhas e o estalar de dedos.
Enquanto invento essa história, me pergunto por que diabos o meu cérebro não veta meu estômago, que insiste em pedir pra minha mão o vigésimo pedaço de queijo e é atendido, em total desprezo à sua capacidade física e noção de suficiência.
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